Hiperbreves 
    


Hiperbreves são contos curtos. Pretendem ter a medida exata. Não podem ultrapassar mil toques. Porque "escrever é cortar palavras". Comecei a escrevê-los em 2001. E continuo tentando ser uma pessoa hiperbreve.

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Nao copie.
Plagio eh crime.
Os contos estao registrados.





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43. do amor e do esquecimento

E então naquele primeiro de janeiro ela acordou sem memória. Não sabia onde estava, nem quem era, nem o que devia fazer. Não tinha ninguém naquela casa enorme e ela não tinha a menor idéia de quem morava lá ou onde estavam todas as pessoas. Viu a chave do carro e o carro na garagem, mas nem se atreveria a dirigir porque não se lembrava de ter aprendido. E nem saberia para onde ir. Comeu alguma coisa boa que achou na geladeira, mas sem saber o que era nem como chamava. Passou o dia inteiro sem fazer nada porque nem se lembrava se a gente deve ou não fazer coisas. Ligou a tv e assistiu a um dos últimos capítulos de uma novela que parecia bem emocionante, mas não sabia nada sobre a história de ninguém. Queria dormir, mas não se lembrava de como ter sono. E então o telefone tocou. Hey girl. E ela sorriu um sorriso apaixonado de quem se esqueceu de tudo porque está amando demais. Mas sentiu um medo, de se esquecer de si mesma. Lembrou que era tarde: já tinha esquecido. De novo.



 
42. a mulher que virava vento

ela demorou a chegar. mas quando entrou me deu um susto. de repente de invisível se tornou um furacão dentro da minha casa. mandava em tudo e era feroz como um garanhão rodeado de éguas no cio. me causava uma estranha sensação de não saber o que fazer. dentro da minha própria casa, sempre dominada por mim, ela me tirava o chão e as certezas. me tirava a segurança ao mesmo tempo em que cuidava de tudo tão bem. me criou uma dependência da sua presença e do seu jeito de me passear por cada lugar meu. antes dela chegar eu achava que conhecia bem tudo por aqui, mas ela me pegou forte no pulso e foi me mostrando um monte de coisas novas que eu nunca tinha visto, mesmo tendo vivido sempre nesta casa, desde que nasci. aquilo me assustava, sim, mas me envolvia ao mesmo tempo, tomava conta de mim, me embriagava, me viciava. e eu comecei a ter medo de não saber mais viver sem ela aqui. muito medo. tanto medo que resolvi mandá-la embora. porque eu sabia que ela virava vento. e o vento que vai nunca volta o mesmo.



 
41. quando o mundo parou

era uma vez uma menina chamada céu. ela tinha um pai, uma mãe e um irmão. tinha sonhos, medos, uma paixão não correspondida, um monte de gente apaixonada por ela e um amor sublime que a esperava. era especial, desafiava a gravidade: céu podia voar. quando a vi pela primeira vez, o mundo parou. sabia que ela podia me levar daqui, por isso passei a viver em função de seus passos. esperava me agarrar a ela no exato momento do vôo. minha vida se tornou espera. mas céu tinha suas coisas, suas crianças, seus desejos – e nada disso me incluía. nem seus vôos me incluíam. eu tentava de tudo para que ela me desse alguma atenção, mas o dia seguinte era sempre vazio, sem céu, sem sol. então, um dia, sem que ela notasse, me prendi ao seu corpo quando levantava vôo. o maior vôo desta vida. quando estávamos lá, no lugar mais alto onde já cheguei, me enchi de felicidade e me soltei, para deixá-la voar sozinha (?). obviamente me espatifei no chão e morri. o mundo parou e eu fui pro céu.



 
40. Rotina alheia

Diz que às quintas ela não dorme em casa. Onde irá? Categoricamente às quintas ela não volta à noite para dormir. Se perguntam - Oi? - não responde - O quê? - desconversa - Estou lendo um livro ótimo... Outro dia resolvi seguí-la. Ela pegou a Ipiranga, virou na XV de Novembro e estacionou em um 24 horas da esquina. Disse um boa noite - Boa noite, meu querido - de quem parece ser freguesa há tempos. Certamente é. Atravessou a rua e entrou no número 222. Um predinho de, no máximo, três andares, seis apartamentos, sem porteiro. Ela tinha a chave. Depois de um minuto, acendeu-se a luz da janela do segundo andar, lado esquerdo. E apagou-se em seguida. Durante cinco semanas, mesma rotina. Então é lá, muito bem, que ela dorme às quintas-feiras. E agora eu me pergunto: que diferença isso faz na minha vida? Categoricamente nenhuma.



 
39. Poder escolher

Naquela madrugada, ela escolheu morrer. Levantou-se da cama quando não pôde mais evitar e pensou por um instante em como faria. Não se dava com armas nem com alturas. Era mais fácil usar algum veneno, entre tantos que tomava na vida. Tinha lá umas caixas de qualquer remédio que lhe pareceram suficientes. Tirou a camiseta velha e a calça de moleton que já cheiravam mal de tantos dias dormidos, refletiu por um momento, e foi abrir o chuveiro. Lavou-se com a calma da última vez. Desembaraçou os cabelos sob a água, como sempre fazia, e decidiu cortá-los. Na pia, os longos cachos. No espelho, a imagem nua, molhada, estranha e definitiva. Sentou-se na cama quando não pôde mais evitar e pensou por um instante no que diria. Então escreveu apenas: deixe-me ir, não quero mais. E foi.



 
38. Chuva

Veio como uma chuva dessas que pega de surpresa. Inundou o carro, a casa, a vida, a alma. Não, a gente pode nunca estar preparada, e eu estava no limite do despreparo. No limite do relaxamento, do descanso, do não-esperado. E o amor chegou. Daqueles que se muda pra casa da gente na segunda semana. Vai ao supermercado, muda a roupa de cama, a rotina, bate papo com a empregada, altera os horários, os sons, os costumes, os dias, as madrugadas. Uma tempestade. Boa. Um refresco, um respiro, um colo, uma restauração. A moça agora dorme aqui, ilumina os meus dias, enche os meus armários, consola as minhas noites, acalma o meu sono, alegra as minhas manhãs. Nem toda tempestade é tragédia. Nem todo amor inesperado é invasão. Nem toda mudança é susto. Veio como uma chuva, e regou o que em mim morria.



 
37. Pois Enfim

Foi um oi o culpado de tudo. Um oi de ida, outro de volta, e a repetição. Assim mesmo, escrito: oi oi. Escreveram uma história com palavras eletrônicas. E literatura. E poesia. Foi esse o jogo, de palavras e poemas. Começaram a conversar sem rosto, por um fio, mas com o coração exposto, a mente excitada, as verdades profundas. Secretas, às vezes. Trocaram e-mails infinitos e ansiosamente esperados, e criaram um vínculo de amizade clandestina, de amor não permitido. Meses depois, a falta de toque já era dor. E ela veio me ver. Distantes, nos descobrimos amantes. As palavras e os poemas virtuais se transformaram em desejo real e em cobiça, sedução, bocas secas de vontades e corpos molhados de imaginação. E, então, ela veio me ter. O oi, seguido de tchau, nos atormenta de saudade. E tentamos achar o caminho desse amor sem tempo, em tempo, real.



 
36. Bonecas

No pulso de uma o nó era firme, mas com o tempo foi alargando e já havia espaço pra passar a mão, com um pouco de esforço. Com menos esforço a cada dia que passava. No pulso da outra, um laço. Bem dado, caprichado, refeito e reafirmado de tempos em tempos, mas um laço. Daqueles bem laços. Daqueles que basta puxar uma ponta para soltar. A corda era grossa. Impossível de partir. Por isso mantinham como podiam o nó. E refaziam o laço assim que soltava. A corda era grossa, afinal, impossível de partir. Isso era o que elas pensavam. E, como na maioria das vezes na vida, elas estavam enganadas.



 
35. O nome da rosa

Ela sonhou com um gorila que a levava para o alto do Empire State Building. Porque, às vezes, a vontade era mesmo só esta: a de entrar na tela e ficar morando lá.



 
34. Deixa eu chorar até cansar

A noite estava opaca. Caminhávamos de mãos distantes embora dadas e olhares contrariados. Nos amávamos ainda, claro. Muito. Muito. Amor para a vida toda. O silêncio era porque a discussão no jantar tocara feridas silenciosas de tão doídas. O restaurante era daqueles que povoam antigas relações e, como nunca se pode evitar, acabamos dizendo mágoas demais. Nada que não passasse nas próximas duas horas, sabíamos. Passos juntos. Peitos apertados daquela vontade de abraçar. Mas, só de orgulho besta, ainda não. Nem uma palavra. Quase no quarteirão de casa, ela não agüentou. Soltou a mão da minha mão, irritada, saiu andando na frente. Claro que irrita não conseguir dizer logo eu te amo e acabar com a bobagem. Eu também me sinto assim. Sempre. Mas ela nunca agüenta, sai andando na frente. Virou a esquina. E... sumiu. Simples assim. Sumiu. Desapareceu. Pessoa desaparecida na noite estranha. Ninguém sabe explicar. A última coisa que eu vi foi isso, moço, ela virando a esquina muda. Eu? Choro.



 
33. Patinhos mortos

Era uma vez uma menina de cabelos cor de pato. Não de pato mesmo; de patinhos. Patinhos de borracha, de criança, de amor. Aqueles de chuveiro, de banheira. Ela adora banheira. Um dia, foi tomar banho de água, com seus cabelos e seus patos. Mas teve um mal súbito. Era muito pequena, não entendia disso. Então sua mãe chamou a ambulância e disse: carreguem ela daí! Disse bem assim: carreguem ela! - Como se eu não tivesse o direito de ter patinhos, nem cabelos, nem banheira, nem banho, nem um mal, súbito. Fechei as minhas mãos pequenas, bem apertadinhas, cada uma cheia de pato para me proteger. E eles me levaram. Eu estava vendo através dos meus olhos fechados. Não sei como. – No hospital, todo branco, disseram para a mãe da menina qualquer coisa que ela, pequena, não entendeu, e nem sabe bem como ouviu. Estava dormindo acordada. Rasparam todo o cabelo dela. Ficou tudo branco. E ela só sonha, há anos, com os patinhos morrendo sem água. Na cama cor de pena. De ganso. - Detesto ganso.

 
32. Insônia

Acordei. Nem é dia ainda. Não, não: nem dormi. Só fingi. Mas não consegui me enganar. Desliguei a televisão às onze e dez. Às onze e quarenta e três, meus olhos foram puxados pela luz dos números no relógio - nervosismo, angústia, estava acordadíssima. Minutos de insônia para mim são horas. Porque depois de um, já sei que vem outro, e depois outro, e eu não durmo há horas. Às duas e dezessete entrei em pânico. Cobri a cabeça com o travesseiro e tentei não pensar em nada. Mas quanto mais tento não pensar, mais aceleradamente meu cérebro funciona. Um desrespeito total do corpo e da mente com a pessoa. Foi nessa hora que comecei a fingir que dormia. Mas agora são quatro e trinta e cinco, quatro e cinqüenta e oito, cinco e vinte. Cocorocó? Não, eu não posso acreditar que meu vizinho comprou um galo. Eu moro na cidade. Cocorocó! Faltam dez minutos pras seis. Seis e quarenta. Sete horas da madrugada. Nem é dia ainda e eu estou acordada desde o mês passado. E agora tenho um galo na cabeça.



 
31. Asas

Abri a janela pela manhã e ele estava ali caído, quase morto. Eu estava morta, portanto sabia que ele ainda tinha uma chance. Não tive coragem de pegá-lo porque minhas mãos pesadas iriam matar o fiapo de vida. Então eu rezei. Trouxe água. Trouxe comida. Dei carinho. E rezei. Abri a janela no dia seguinte e ele não estava mais lá. Não tinha morrido. Porque eu tinha, e sabia que quando se morre não se sai do lugar. Queria eu não estar mais ali no dia seguinte. Eu queria sumir, subir, voar. Queria alguém que me trouxesse água. E comida. Alguém que me fizesse carinho e que rezasse por mim. E queria não estar mais aqui no dia seguinte. Porque estou cansada de não voar. Estou cansada de não voar. Estou cansada. De não voar estou exausta. Estou exausta. E essa janela é um tédio. Sempre a mesma paisagem. A mesma paisagem de não voar. A paisagem desabitada que não serve nem como vista para a morte. Abri a janela na manhã seguinte e ele estava lá, morto. Sem asas, os dois, nos fazemos companhia.



 
30. A primeira menina

Vai chegar Stella. Dizem que segundo filho a gente trata diferente. Porque já sabe que não morre se cair e que não sufoca com a comida. Mas desta vez é uma menina! Imagine se o pai não está bobo com a idéia de ter uma mini-mulher-da-sua-vida, e se a mãe não está sonhando com os vestidinhos lindos que vai comprar para ela. Eles podem negar, mas, tirando daqui e pondo dali, é assim que se sentem. Ela foi primeira filha, portanto, provavelmente, vai mimar Stella. Ele é homem e não teve irmãs, portanto, provavelmente, vai mimar Stella. Mas como será isso, de ter uma boneca de verdade nos braços? Uma bonequinha que depende da gente para tudo, como na infância. A gente que dá de comer, que dá banho, penteia o cabelo, põe as chiquinhas, as pulseirinhas, os perfuminhos. Como será ninar uma boneca que se mexe? E brincar de mamãe com uma filhinha que respira e sorri? Como será agora brincar de casinha com a família completa? Eles não sabem. Mas querem brincar disso para sempre.



 
29. A camareira

Viaja de ônibus todo fim-de-semana. Seis horas para ir. Seis para voltar. Não dorme na estrada. “De jeito nenhum!”. Fica lá sentada, de olhos abertos no escuro, pensando talvez. Não se sabe. Tem cabelos curtos e grisalhos. Põe bobe nas pontas para fazer chanel. Usa óculos, mas disfarça. “Eu enxergava que era uma beleza, mas a gente fica velha!”. Fuma bastante. Não perde a parada - para fumar, claro. Ás vezes está um frio de matar, mas ela vai. Fica lá no banquinho, de gorro e luvas, soltando fumaça. Antigamente nem deitar a poltrona ela deitava. Agora aprendeu. “Ah, é muito mais confortável! Eu não sabia”. Quando chega, pega a malinha, e com sua magreza infantil vai a passos curtos e rápidos para o metrô. Toma o trem para o Tucuruvi. “Ai, que saudade dos meus gatinhos”. Tem doze. Com nome e sobrenome. Passa a semana com eles. Quando viaja, o marido cuida. “Tenho que trabalhar, senão quem compra comida pros gatos?”. Não tem filhos, nem dentes. Mas tem muita, muita alegria de viver.



 
28. Às quartas

A mãe sofre demais toda quarta-feira à noite. Porque no outro dia alguém vem buscar a menina. Você sabe o que é, meu senhor, ter de ver sua filha pequena indo embora em braços ruins? É um crime, meu senhor. Uma violência. Um mistério de Deus, se Deus houver. Lave as mãos, meu senhor, para falar com esta mulher. Uma santa. Uma filha santa, uma irmã santa, e agora uma mãe santa. Você sabe, meu senhor, por que sofrem as boas almas? Lave a alma, meu senhor, com a história desta mulher. Não vou contá-la, não, para que o senhor imagine o pior. Uma santa de cujos braços de mãe lhe arrancam a criança. Toda a semana, meu senhor. Toda semana. E ela, paciente, espera. Quatro dias que duram meses. É quase a espera de nascer de novo. E quando a menina chega, iluminam-se todas as janelas, todos os olhos, todos os corações do bairro. Da cidade. Do mundo. Você sabe o que é, meu senhor? É quase a morte quando a levam. É uma santa mutilada a cada partida. É uma vida injusta, meu senhor.



 
27. Medo de quê?

Vinte e sete beijos. Eu me perdi em vinte e sete beijos. E vinte e nove abraços. O resultado é exato. Surpreendente e exato. Na mesa do restaurante ninguém podia imaginar mas todos sabiam. Na coxia do espetáculo ninguém sabia mas todos imaginavam. Quando duas pessoas se encontram, por mais curto o tempo que dure o olhar, alguma coisa ao redor muda de cor, e quem tem olhos, vê. A moça queria um título de baronesa e foi pedir ao rei. O rei não olhou para ela por isso mandou dizer que sim. Mas se a visse como eu a vi, o título seria outro. Vinte e sete beijos, vinte e nove abraços, quatro peças em cartaz. Uma bagunça de histórias e cortinas que se abrem. Uma menina no espelho que não é o seu, mas que a reflete, de repente. E se é fábula não existe medo (Será?). O mal nunca vence nos contos de fadas. Uma baronesa que virou princesa e uma idéia improvável que virou trilha. Não há roteiro. E o improviso entre duas pessoas em sintonia é bem interessante. É um conto curto e feliz. Ou não.



 
26. O telefone vermelho

Alô? Oi, sou eu. Tô numa reunião, posso te ligar depois? Claro. Alô? Oi, aconteceu alguma coisa? Não, nada. Só queria saber como você está. Nossa, fiquei preocupada. Desculpa. Tá tudo bem. Tô trabalhando muito. Você abriu mesmo seu negócio? Abri, aqui em casa. Mas é difícil, esse meio só tem picareta, e eu sou meio boba, você sabe. Você não é boba, é boa. Ser bom já era. Ah, não fala isso! É, sei lá. Tanta gente casando, né. Sou madrinha em setembro. Eu também! E você, continua namorando? Continuo. E tá legal? Tá. Por que cê não vai ver minha peça? Esse assunto é meio complexo aqui? Por que, você contou? Contei. Que bom! E ele entendeu... Não. Não?! Não acredito! É, não... é bem complicado. E eu continuo treinando. Trabalhamos juntos, né, se não tiver paz depois do expediente, não dá! E não temos tido. Puxa... Sabe, um dia seremos todos amigos. Eu também achava, mas já não sei. E você, como tá? Igual, sem rumo. (Silêncio) Preciso atender meu celular. Tá, vai lá. Um beijo. Outro.




 
25. Quando chove

O primeiro sinal de que a tarde seria difícil foi a chuva. Não por chover, ela adora chuva. Mas porque o trânsito fica caótico, as pessoas impacientes e grosseiras, a cidade escura e ameaçadora. Havia tempo ela não sentia medo de um almoço entre amigas como naquele meio-dia. Saiu do escritório tensa, dirigiu longe, levou horas para chegar. Respirou fundo, deixou o carro com o manobrista, entrou no elevador e subiu sozinha. Um silêncio. A vista do restaurante era lindíssima. As pessoas nas mesas também. Mas ela se sentia a mulher mais feia do mundo. As meninas fizeram festa quando a viram, levantaram-se, cheias de sorrisos sinceros, gritinhos, abraços. Ela largou a bolsa na cadeira, retribuiu os risos, e abraçou com mais angústia do que alegria. Com a chuva presa na garganta. Estavam comemorando a notícia do seu casamento, finalmente. Mas quando ela via toda aquela gente feliz, não tinha certeza se estava, e chovia. E mais uma vez sofreu calada, naquele almoço indigesto de chuva.




 
24. Tragédias Curtas

A menina tinha oito anos quando sofreu o acidente, nunca mais pôde andar. O menino nasceu com uma disritmia no coração, cansado e sem infância - nunca brincou como as outras crianças. A carreira do rapaz era brilhante, mas descobriu um câncer e teve de largar tudo aos 27 anos - mora no hospital há dois. Estava tudo pronto para o casamento, no dia seguinte. Naquela noite ele foi atropelado: está em coma há quatro meses. Ela se matou sete dias depois, pulou do oitavo andar. Finalmente havia conseguido engravidar, depois de um ano tentando. Ele não via a hora de ser pai. A mulher e o feto foram assassinados durante um assalto. Os quatro filhos viajaram juntos na excursão. O ônibus capotou. Os três mais novos morreram; o de 15 bateu a cabeça e não sabe mais falar. Ele tinha 62 anos, caminhava todos os dias, estava construindo uma casa na praia e esperando o primeiro neto, da filha mais velha. Um aneurisma cerebral explodiu de repente e interrompeu tudo. Deus também não deve saber por quê.



 
23. A Família

Antonio e Regina se casaram em 1962. Em 64 nasceu Cecília. Em 65 nasceu Mariana. Em 68 nasceu Rafael. Em 74, Clarice, por acaso. Cecília casou-se em 89 com Edu. Mas não deu certo e se separou dois anos depois. Em 94, casou-se de novo, com Murilo. O primeiro filho deles, Léo, nasceu em 95. E em 96 nasceu Bia. Nesse mesmo ano Rafael se casou com Lucia. Em 99 ela deu à luz Pedro. A irmã dele, Gabriela, nasceu em 2002. Mariana casou-se com Miguel antes disso, em 2001. E eles também tiveram uma menina no ano seguinte: Clara. Clarice viveu um grande amor com Elena entre 94 e 99, mas agora está só. Cecília, Murilo, Léo e Bia moram em um apartamento no bairro Quatro, e têm um cachorro preto. Rafael, Lucia, Pedro e Gabriela estão na ala Três, com vista para o mar. Mariana, Miguel e Clara vivem em outro continente, no frio, mas sempre telefonam. Clarice ainda mora com Regina e Antonio, na casa Oito. Todos viajam muito. Alguns trabalham. Outros estudam. Às vezes alguém chora. E a vida se repete.

 
22. Um amor de improviso

Você não está olhando pra mim. Mas eu te olhei tanto hoje. Não sei bem a sua voz, mas te olhei e te vi. Senti de novo aquela coisa que a gente sente quando se apaixona. Mesmo que seja só por um dia, por um instante até. Eu me apaixonei. Comecei a pensar nisso de repente. Porque alguém me disse que eu estava com ciúme. Estava mesmo, me dei conta. E então, durante dias, tentei desenhar seu rosto dentro dos meus olhos. Confesso que não consegui. Mas hoje eu te vi e te olhei bem. E meu sorriso se descontrolou. Você não viu. Você não me olha. Nem vai olhar. Suas pernas tremem. É medo? Como é que eu posso me apaixonar por alguém cuja voz eu nem sei bem? Como é que eu posso, se nem tenho seu rosto claro na minha memória? Eu não sei também. Mas me apaixonei, hoje eu vi. Eu vi, enquanto você não me olhava. O caso é que nem nos conhecemos. Só te olhei, e te vi, e te amei. Será que vem alguma dor com isso? Olha, vê bem, meus olhos estão tremendo. Minhas pernas tremem. É medo, sim.




 
21. O Erro

Aconteceu de novo muitos anos depois da última vez. Ela nem se lembrava de como era. Mas aconteceu. E doeu. Foi num dia qualquer, como outro qualquer, e poderia ter sido em qualquer lugar, a qualquer momento. Ela não sabe explicar. Pois se foi uma música, um cheiro, uma paisagem... ela não sabe. Aconteceu enquanto respirava, num piscar de olhos, numa virada de cabeça, enquanto manobrava o carro no estacionamento do shopping. E depois aconteceu no trânsito, quando olhou o céu pela janela, e assim que encostou o carro para pegar as crianças na escola. Aconteceu tantas vezes durante o caminho de volta, quando viu que o sol estava se pondo, quando comprou balas no farol, quando a filha lhe mostrou a estrelinha na prova. Aconteceu quando ela chegou em casa e viu as flores que o marido lhe comprara, por nada, porque não é preciso um dia especial para dar um presente a uma pessoa especial. Aconteceu. Ela sentiu saudades do amor de sua vida. E viu que não era feliz. (A não ser pelas crianças).



 
20. Jangada

Ela acordou naquele dia implorando a noite. Nem queria ter acordado tão cedo. As horas eram uma jangada cruzando o oceano. Os ponteiros pesavam no pulso. O coração não pulsava, explodia. Foi ao mercado comprar o vinho de nome perfeito: Santa Helena. E queria poder comprar todas as coisinhas de que gostavam quando compartilhavam a vida. Mas não podia fazer isso, ela sabia. Seria pôr tudo a perder. Não fez. Trancou em si as vontades e voltou para a casa comendo o tempo. Que chegou, enfim. Abriu o portão como se entrasse em cena no teatro lotado. O brilho daquele rosto era um milhão de refletores. E, ah, como ela ainda amava aquele rosto. Juntaram-se aos outros e riram a noite inteira. O fogo da lareira era um reflexo. O paraíso. Quando ela quis quebrar o relógio já estavam a despedir-se lá fora. Só aí conversaram, ao som de sempre. E a paz voltou, finalmente. Ela escutou e entendeu. E, como nunca antes, acreditou que a vida podia ser boa de novo. Ainda que o novo amor venha a passo de jangada no mar.



 
19. Joana

Essa mulher tomou conta de mim. No começo foi difícil, brigamos muito, parecia impossível uma vida em comum. Mas fomos nos conhecendo melhor. Busquei em mim memórias que me ajudassem a entendê-la. Ela, dura mas disposta, foi me aceitando devagar. Nos misturamos como por encanto. Hoje somos uma. Todas as noites comemoramos este encontro no palco. É intenso e visceral. Ao mesmo tempo em que nos relacionamos com os outros, permanecemos em um mundo nosso, cheio de luzes, e sons, e silêncios. Confundimos às vezes o sonho e a realidade, as nossas certezas e um monte de mentiras acumuladas em nós. Tentamos permanecer de pé e sãs. Mas não podemos. Aos poucos perdemos a capacidade de discernimento e, ao final do nosso encontro diário, matamo-nos, como quem se dá um presente, como quem recomeça uma vida que há de ser feliz. Onde ninguém sofre, ninguém espera. Onde não dói. De onde ninguém vai nunca embora. Onde ninguém fica sozinho. Morremos ao som dos aplausos na platéia. Morte melhor não há.



 
18. A vida foi ontem

Ele abriu os olhos. Olhou ao redor. O quarto estava vazio. Levantou-se, em silêncio. Abriu a porta. Vagou pela casa. Estava vazia. Sentia fome, e sede, e frio. Procurou na geladeira, nos armários, nas gavetas. Tudo vazio. Não conseguia se lembrar do dia anterior, nem de nada antes daquele momento, daquela manhã vazia. Ele estava vazio. Um náufrago num mundo estranho. Um estrangeiro na própria existência. Ficou assustado. Correu para o jardim, vazio. Saiu para a rua, tenso: vazia. Desesperou-se. Andou muito. Cansou. Deixou-se cair ao chão. E viu que o céu estava vazio. Sem forças (...) ficou lá deitado, olhando. Ficou olhando o vazio. Pensando no vazio. Sentindo, só, vazio. Pausa. Longa pausa no vazio. Então, com calma ele esticou o corpo, ficou de pé, começou a voltar. Caminhou devagar. Entrou em casa. Trancou a porta da frente. Trancou a porta do quarto. Enfim estava cheio daquele vazio. Dormiu cheio. E vai acordar ontem. Ganhou mais uma chance.



 
17. Hipóteses invisíveis

No dia 8 de junho completaram quatro anos de namoro. No dia 1° de agosto se separaram. Foi uma discussão igual a muitas outras, mas daquela vez não tinha volta. Um pouco por causa do cansaço, um pouco por causa do resto do mundo. Agora o que sobrava para ocupar os dias de dor era pensar se poderia ter sido diferente... E se ela tivesse sido mais flexível? E se tivesse relevado mais coisas? Se não invadisse tanto o futebol? Se não implicasse com as noites de bebedeira? E se gostasse um pouco mais de praia? E se não quisesse ir tanto ao cinema? E se tomasse menos decisões? E se dissesse mais coisas bonitas? E se ela tivesse mais paciência? Se comesse menos no Mc Donalds? Se fosse menos dependente? E se sentisse menos frio na neve? E se acordasse mais cedo? Esquiasse mais? Corresse no parque? Se não chorasse tanto? Se não brigasse sem motivo? Se não tivesse mau humor? E se fosse de outra cor? De outro tamanho? Se chovesse? E se não enxergasse? Se não enxergasse seria mais fácil encarar.

 
16. Amor de raposas

Estava perdidamente apaixonada. E não é força da expressão. Estava mesmo perdida. Sem saber para onde ir quando acordava, sem encontrar os caminhos por onde antes conseguia escapar. Ela estava sentindo de novo aquela coisa que move a gente. Que tira os limites, que cristaliza os olhos, que escancara o sorriso. Não queria sentir, mas era sem controle. No começo nem conseguiu pensar em como tudo era absurdo, porque a cabeça não funcionava. Ela olhava aqueles olhos que amava e surgia um nublado de sonho e satisfação confundindo o raciocínio. Comprou presentes, faltou ao trabalho, perdeu a noção da hora dias seguidos, vendo o céu clarear no meio da conversa. Fez coisas de que não gostava, com prazer. Aprendeu a gostar porque amava quem ensinava. Ainda ama, mas sozinha. E quando se pergunta para que serve tudo isso, ela se lembra da raposa, do pequeno príncipe, e do trigo... Fecha os olhos e agradece por ser capaz de amar. Não importa quem. Não importa muito.

 
15. Esforço e indelicadeza

Foi assim como um soco no estômago. Ela acordou no dia do aniversário dele e não pensou em outra coisa senão nos presentes. Queria que fosse especial, como havia muito não era. Queria mostrar para ele que ainda existia uma esperança. E ela acreditava que ele também queria. Passou toda a tarde olhando vitrines, escolhendo gravatas, procurando idéias. Fez cópia de uma foto dos dois para colocar no porta retrato que escolheu para ele. Completou as caixas com chocolates e sonhos. Foi levar. Sabia que ele não estava em casa. Mas a família estava. E a família sempre a recebia melhor do que ele. Assim foi. No fundo, ela preferia que os presentes fossem para a família. Mas estava tentando. Ele, ela sabia, só no dia seguinte. Mas aí veio o soco. Ele não ligou. Já fora mais educado, ela pensou. O soco não doeu, foi só incômodo. E o que mais incomoda no fim de tudo é isto: ela queria acreditar que ainda queria, mas era só esforço. Ela nem faz questão que ele ligue, só lamenta a indelicadeza.

 
14. As três e o amor

Eram três. Uma não via. Outra não ouvia. E a terceira não falava. Tinham um acordo íntimo: completavam-se. Sabiam que juntas podiam tudo. Separadas, não sabiam... Bê era a que não falava, tinha o olhar claro e os ouvidos atentos. Cê não escutava e era a menina dos olhos. Tinha uma boca delicada e cílios longos, que faziam moldura para jaboticabas, penetrantes e sinceras. Dê não enxergava, mas tinha o dom da palavra. Invadia, hipnotizava, fazia crer no que queria, e gostava de ouvir os aplausos no fim do discurso. Viviam como ímãs. Optaram por ser uma inteira a três pedaços. As pessoas não entendiam bem. Tentavam se aproximar mas não conseguiam. As três fecharam-se para garantir a união inquebrável. Temiam muito, porém, o que poderia separá-las, mas não sabiam o quê. Até que descobriram. O amor. Cê se apaixonou por Sven, enxergou nele o que lhe faltava, e deixou de ser os olhos das três. Bê e Dê se perderam, cegas. E andam perdidas à procura de Svan e Svin.




 
13. O primeiro filho

Fabiana vai ter um bebê. O primeiro. Ela tem uma beleza grávida que lhe transforma a forma em diamante. Brilha. Mudou-se de casa porque não tinha um quarto para Lucas. Fernando ajudou a escolher o nome. Pintou as paredes, carregou os móveis, e passa horas admirando a barriga que lhe faz pai. O quarto do bebê está sendo montado: prateleiras, cortinas brancas, tons pastéis no berço e uma cômoda de madeira clara com gavetas grandes. Roupinhas, Lucas já ganhou muitas, e sapatinhos, e bichinhos, e coisinhas. Fabiana arruma a nova casa enquanto espera. Cada coisa traz lembranças. Os presentes de casamento, os enfeites da sala, a geladeira, os ímãs das viagens que fizeram juntos nesses três anos, as fotos. Tantas fotos... Ela se emociona e até chora pensando no que já viveu. Mas ela sabe - porque a avó contou, a mãe contou, a tia contou - e sabe mais a cada dia, porque sente, que nada se compara à emoção que está por vir: o primeiro filho.

 
12. Olhos de brinquedo

A menina da janela observa tudo. Está no segundo andar. A rua é calma, margeada de árvores e coberta de folhas. A casa é rosa, tem um gramado ao redor, uma varanda na entrada e nada de portão trancando a menina. Ao alcance dos olhos dela está o sobrado lilás, bem em frente. A escola de inglês, do lado esquerdo do sobrado. E a praça com o gira-gira, do outro lado. Ela não liga pro gira-gira. Gosta mesmo é de ver as pessoas. Tem oito anos e uma população dentro de si. Sabe como a criada da frente varre a calçada, conhece o andar da diretora da escola e imita direitinho a garota manca que brinca na praça todas as tardes. Não erra o barulho do lixeiro. Pergunta - e decora - nome e sobrenome de cada entregador que aparece. Já contou os cadernos que o menino do skate leva para a aula de música - três - e está quase certa de que o guarda da noite apita 44 vezes, da hora em que entra no turno até a hora em que ela dorme. A menina da janela tem cachinhos dourados, dentes de leite, e é cega.

 
11. Uma semana com ela

Fomos ao aeroporto, minha mãe e eu, buscá-la com uma alegria que nos delatava a saudade. Esperei no carro e quando a vi, ainda embaçada pelo vidro da janela, já senti a falta que ela nos faz. Mas o amor é tanto que em dois minutos nos encaixamos como se tivéssemos estado sempre perto. Como mercúrios coloridos que, despejados num vidro cheio de contornos, se preenchem, se desenham, se moldam conforme a felicidade de estar junto transforma o tempo distante em harmonia e arte. Agora estamos aqui, em casa, quase todos. Crianças, cachorros, música, mamãe gritando, telefone, campainha. Papai não está, ainda. Mas a presença dele é constante e Recife é logo ali. É festa. É domingo. Tia Odila também não está. Mas sei que só não podemos vê-la, porque ela nunca sai daqui, e nos completa. Agora preciso ir porque o tempo com minha irmã é precioso. A barriga dela está começando a aparecer. O bebê já deve estar sentindo o amor que o espera aqui fora. Quero que a semana não acabe.

 
10. O porão

Dez anos depois da primeira noite no porão, finalmente vão se casar. São lindos. Amados, idolatrados, mimados e felizes. Salve. Ela pinta, faz artesanato, faz as unhas, faz ginástica, faz pirraça. Ele é corinthiano, libanês e pimpão. Tem loja no Brás, vende roupa pra garotão e supre todas as necessidades do guarda-roupas do irmãozinho dela, de dois metros de altura. O cunhado conserta os micros dele e é cúmplice de um monte de coisas. Principalmente das noites no porão. Lá ficava o primeiro sofá deles e o primeiro computador do moleque. O casamento é no mês que vem, mas ninguém agüenta mais esperar. Ninguém nunca agüentou direito. Um dia ele pediu licença, ela pensou que vinha um beijo, veio só um cafuné, pra começar bem. Um dia ela pediu licença, teve gente que chorou de medo que ela não voltasse, mas foi só pra terminar bem. Ou para não terminar nunca. O porão não existe mais onde ele era. Mas dizem que já estão cavando um novo na casa onde eles vão morar.

 
9. Franguinho de leite

Estavam noivos. Mas ela não suportava nem olhar para ele. Nunca o beijou. Jura de pés juntos que não! Não aguentava a voz, o cheiro... Era uma tortura. Sofrimento não era porque ela dava risada por dentro. Mas não podia mais levar aquilo adiante. Criou coragem, tirou o anel do dedo e desfez o compromisso. Devolveu os presentes, as jóias, e pediu para ele sumir. O pai fez que não entendeu. Ou talvez não tenha entendido mesmo. Olha, meu querido, ela está brincando, passa aqui amanhã para comer franguinho de leite. Mas que franguinho de leite, pai?! Eu estou rompendo o noivado e o senhor chama o homem pra comer franguinho de leite! Tenha santa paciência! Está aqui a aliança. Passar bem. E nada de vir comer franguinho amanhã. Esse leite já azedou faz tempo! Ele não voltou. Ela deu de ombros, agradeceu a Deus, e casou com um outro que não incomodava tanto.

 
8. Teatro do absurdo

É uma típica adolescente. A não ser por apreciar muito literatura. Não que os adolescentes não tenham essa virtude, mas não é típico. Clarice, Pessoa, Saramago, Nelson... Moça de gosto apurado, e de bons professores. Alta, magra, cabelos longos e castanhos, olhos de menina, pele muito clara, bochechas muito rosas quando o sangue ferve, claro. De longe, vestida para a festa, engana ter uns oito anos mais. De longe. É apaixonada pelo teatro e por tudo que tenha ligação com ele. Densa, profunda, dramática e imatura. De longe. Está prestes a protagonizar uma tragédia. Seu primeiro papel principal - rodrigueano. Confundiu-se porque quer fugir da vida que leva. Quer outra. Não gosta do que tem nem do que é. E ama o teatro. Ela está em casa, tem uma faca na mão, vai matar a família. Misturou palco e farinha e não sabe mais distinguir os refletores do abajur da sala. Os pais, e a irmã, dormem. Ela está cega, mas a faca, não. Os pais e a irmã dormem.

 
7. Continua sem saber

O que sentiu ela não sabe explicar. Mas foi dor. Foi como se a pessoa à sua frente, no meio de tantos amigos, fosse qualquer uma menos aquela, com quem tivera uma vida em comum. O rosto era o mesmo, as roupas, o cabelo, a voz. O olhar, não sabe. Não tiveram coragem de parar os olhos nos olhos. Mas o cheiro, os passos, os planos para mais tarde eram outros. Quais, não ousou pensar. Na verdade pensou, mas para não chorar ali mesmo esqueceu o que sabia. Chorou depois. Dois abraços foi tudo o que trocaram. Ela quis dizer tanta coisa mas nem sabe se abraçou direito. O corpo tremia, a cabeça voava, nem sabe o que deu. Mas sabe o que não recebeu: carinho, saudade, vontade do passado, chance. Sentiu tudo sozinha. E foi dor. Mais uma vez se despediram para Deus-sabe-quando. Mais uma vez ela tenta achar o que fazer com o resto de si. As partes quebradas de si. O que sobrou da vida. Nem sabe...

 
6. Estrela Cadente

Criamos uma equipe de expedição. Chama-se Estrela Cadente. Os chefes somos nós três: Luca, Giovanna e eu. Estávamos na casa da tia Ivete, em um domingo triste, e a necessidade de ocupar o tempo fez nascer o grupo e a aventura. O primeiro desafio foi lá mesmo, conseguimos dar várias voltas na casa sem sermos vistos. Corremos, pulamos, rastejamos e terminamos com vida. A segunda aventura foi na casa da Dri, mas a hora do banho nos venceu. Hoje a tarefa foi mais ousada. Caprichamos na produção e adquirimos vários equipamentos de apoio. O objetivo era percorrer cada canto da mansão do vovô, descobrir as passagens secretas e enfrentar de perto os latidos assustadores das feras que habitam a garagem. Mochilas nas costas, chapéus camuflados nas cabeças, rádios comunicadores nas mãos, binóculos e chaves para todas as portas - partimos. Muito suor mais tarde: vitória! Nota dez e estrelinha! Com participação especial da tia Dani, dupla passagem pelos cães ferozes, e muitos copos d'água.

 
5. Ela cantava os dizeres dos letreiros do caminho

Sinto a falta dela como uma dor de dente. Uma dor de parto sem o filho depois. Os domingos não têm mais aquela luz. As ruas não têm mais aqueles letreiros. Ela lia todos. Todos os domingos. Na ida e na volta. Eram os mesmos, mas ela lia todos. Cantava-os às vezes. Ela cantava os dizeres dos letreiros do caminho. Parece brincadeira. E era a minha alegria. Ela me alegrava a hora, o dia, a semana e a vida inteira. Não há um dia em que eu não pense nela. E não há um pensamento que não doa. Quantas vezes o impulso de pegar o telefone foi mais forte do que a razão, fatal: ela morreu, não está mais, não vai atender. Ela não pode mais me dizer o que achou do que vimos agora na TV. Não vai mais lamentar comigo o rapaz que perdeu o milhão. Nem vai correr para ver o Tio Dinho no Túnel do Tempo. E o tempo não tira dos meus ouvidos a música que só ela sabia cantarolar. A música do caminho. Da ida e da volta.

 
4. As metades e o segredo

Elas se apaixonaram. Viveram juntas os dias mais felizes. Não foi à primeira vista. Foi uma descoberta lenta e boa. Amizade enraizada em detalhes, que virou família, que virou paixão, e amor. Primeiro um cinema com as outras meninas. Depois, festas! E aí já saíam sozinhas porque se bastavam. Estudavam juntas, almoçavam juntas, matavam juntas o trabalho. Adoravam Fábio Jr. e teatro. E todos os dias entretinham, juntas, as crianças que tinham dentro de si. Cantavam alto no carro, gritavam à toa, pulavam no sofá, faziam cócegas até morrer de rir. Um dia as cócegas viraram abraços. E as risadas, respiros, suspiros, susto! Eram uma só. Descobriram, ao mesmo tempo, a alegria-sem-palavras de amar e a angústia de ter um-segredo-tão-grande. Mas o amor era maior do que tudo. Foram felizes durante anos, apesar dos olhares felinos, dos ambientes cruéis e das mães, devastadoras. Até que o amor perdeu. Elas perderam, e se perderam. E voltaram a viver pela metade.

 
3. Luca e o fim do mundo

Chegamos à lanchonete e ele disparou para os brinquedos lá fora. Para ele, o maior parque do mundo! Um escorregador enorme, em formato de tubo, e uma piscina de bolinhas. O maior parque do mundo! Luca tinha cinco anos e correu para brincar com mais fome do que a que um sanduíche poderia saciar. Compramos os lanches felizes, sentamos, comemos. Ele não veio: brincava. Estava lá, reluzente, num ciclo de subidas e descidas, e cheio da maior glória que uma criança pode ter! De repente parou, se afastou, ficou estático olhando de longe a entrada do brinquedo. O que foi, meu amor? - perguntei. Um menino de oito anos - oito anos! -, ele arregalou os olhos, me disse que luta karatê e que não quer mais que eu brinque no escorregador, respondeu com um nó de choro na garganta. Por mais que a gente explicasse que o menino não era o dono do lugar, ou insistisse para ele voltar lá, não quis mais saber. Tomado de um pavor mortal, pegou seu saquinho de batatas e foi comer lá dentro, na mesa mais distante que encontrou.

 
2. Amor e guardanapos

Vinte e seis anos de vida e eu nunca havia reparado. Devo ter me abaixado para pegá-lo mais de mil vezes, mas nunca me dera conta. Até que papai nos chamou a atenção um dia: ela sempre derruba. Minha mãe é psicóloga, chique, inteligente. A mãe mais culta que conheço. É elegante, vaidosa, bonitíssima. Estão juntos há mais de quarenta anos. Não é para qualquer um. Ele é perfeccionista, sábio, um touro. Quarenta e oito e meio, para ser mais exata. Quatro filhos. Três netos. E eles namoram, ainda. Jantamos muito juntos, almoçamos aos domingos, já viajamos bastante. Mas nenhum de nós percebia. É desses detalhes que recheiam um amor de vida inteira. Desses sinais de que eles não existem separados. E dessas pequenices que nos unem pelo riso. Minha mãe é impecável. Meu pai, um lorde. Mas a cena é de cantina de cinema italiano. Ela sempre derruba o guardanapo. E ele sempre reclama. Graças a Deus.

 
1. A Grande Atriz

Ninguém como ela. Aquela mulher no palco transforma atuar em sacramento. No dia de minha morte fui vê-la, sem nunca imaginar as lágrimas doces que cairiam mais tarde. Antes de tudo, eu chorava pela verdade desesperada que ela me entregava em cena. Cada movimento desenhado, esculpido. A obra extraordinária do artista perfeito. Uma partitura de ações, música de gestos, trilha. O olhar: profundo. A voz penetrante. O corpo em (des)harmonia com a decadência de uma mulher apaixonada, e desprezada, e abandonada com uma ilusão que não lhe preenchia mais. A atriz mais maravilhosa que já conheci. Não sabíamos, mas, ali, destrinchando as entranhas das minhas emoções mais secretas, ela despedia de mim o teatro, razão de viver. Não sabíamos. E ela jamais saberá o que me deu naquela noite. À saída do espetáculo, um estouro perdido, a cabeça estilhaçada. Saí de cena muda. Mas plena das lágrimas amargas de Petra Von Kant. Minhas.