19. Joana
Essa mulher tomou conta de mim. No começo foi difícil, brigamos muito, parecia impossível uma vida em comum. Mas fomos nos conhecendo melhor. Busquei em mim memórias que me ajudassem a entendê-la. Ela, dura mas disposta, foi me aceitando devagar. Nos misturamos como por encanto. Hoje somos uma. Todas as noites comemoramos este encontro no palco. É intenso e visceral. Ao mesmo tempo em que nos relacionamos com os outros, permanecemos em um mundo nosso, cheio de luzes, e sons, e silêncios. Confundimos às vezes o sonho e a realidade, as nossas certezas e um monte de mentiras acumuladas em nós. Tentamos permanecer de pé e sãs. Mas não podemos. Aos poucos perdemos a capacidade de discernimento e, ao final do nosso encontro diário, matamo-nos, como quem se dá um presente, como quem recomeça uma vida que há de ser feliz. Onde ninguém sofre, ninguém espera. Onde não dói. De onde ninguém vai nunca embora. Onde ninguém fica sozinho. Morremos ao som dos aplausos na platéia. Morte melhor não há.