42. a mulher que virava vento
ela demorou a chegar. mas quando entrou me deu um susto. de repente de invisível se tornou um furacão dentro da minha casa. mandava em tudo e era feroz como um garanhão rodeado de éguas no cio. me causava uma estranha sensação de não saber o que fazer. dentro da minha própria casa, sempre dominada por mim, ela me tirava o chão e as certezas. me tirava a segurança ao mesmo tempo em que cuidava de tudo tão bem. me criou uma dependência da sua presença e do seu jeito de me passear por cada lugar meu. antes dela chegar eu achava que conhecia bem tudo por aqui, mas ela me pegou forte no pulso e foi me mostrando um monte de coisas novas que eu nunca tinha visto, mesmo tendo vivido sempre nesta casa, desde que nasci. aquilo me assustava, sim, mas me envolvia ao mesmo tempo, tomava conta de mim, me embriagava, me viciava. e eu comecei a ter medo de não saber mais viver sem ela aqui. muito medo. tanto medo que resolvi mandá-la embora. porque eu sabia que ela virava vento. e o vento que vai nunca volta o mesmo.
Hiperbreves são contos curtos. Pretendem ter a medida exata.
Não podem ultrapassar mil toques. Porque "escrever é cortar palavras".
Comecei a escrevê-los em 2001. E sigo tentando ser uma pessoa hiperbreve.
terça-feira, dezembro 30
terça-feira, dezembro 9
41. quando o mundo parou
era uma vez uma menina chamada céu. ela tinha um pai, uma mãe e um irmão. tinha sonhos, medos, uma paixão não correspondida, um monte de gente apaixonada por ela e um amor sublime que a esperava. era especial, desafiava a gravidade: céu podia voar. quando a vi pela primeira vez, o mundo parou. sabia que ela podia me levar daqui, por isso passei a viver em função de seus passos. esperava me agarrar a ela no exato momento do vôo. minha vida se tornou espera. mas céu tinha suas coisas, suas crianças, seus desejos – e nada disso me incluía. nem seus vôos me incluíam. eu tentava de tudo para que ela me desse alguma atenção, mas o dia seguinte era sempre vazio, sem céu, sem sol. então, um dia, sem que ela notasse, me prendi ao seu corpo quando levantava vôo. o maior vôo desta vida. quando estávamos lá, no lugar mais alto onde já cheguei, me enchi de felicidade e me soltei, para deixá-la voar sozinha (?). obviamente me espatifei no chão e morri. o mundo parou e eu fui pro céu.
era uma vez uma menina chamada céu. ela tinha um pai, uma mãe e um irmão. tinha sonhos, medos, uma paixão não correspondida, um monte de gente apaixonada por ela e um amor sublime que a esperava. era especial, desafiava a gravidade: céu podia voar. quando a vi pela primeira vez, o mundo parou. sabia que ela podia me levar daqui, por isso passei a viver em função de seus passos. esperava me agarrar a ela no exato momento do vôo. minha vida se tornou espera. mas céu tinha suas coisas, suas crianças, seus desejos – e nada disso me incluía. nem seus vôos me incluíam. eu tentava de tudo para que ela me desse alguma atenção, mas o dia seguinte era sempre vazio, sem céu, sem sol. então, um dia, sem que ela notasse, me prendi ao seu corpo quando levantava vôo. o maior vôo desta vida. quando estávamos lá, no lugar mais alto onde já cheguei, me enchi de felicidade e me soltei, para deixá-la voar sozinha (?). obviamente me espatifei no chão e morri. o mundo parou e eu fui pro céu.
Assinar:
Postagens (Atom)