34. Deixa eu chorar até cansar
A noite estava opaca. Caminhávamos de mãos distantes embora dadas e olhares contrariados. Nos amávamos ainda, claro. Muito. Muito. Amor para a vida toda. O silêncio era porque a discussão no jantar tocara feridas silenciosas de tão doídas. O restaurante era daqueles que povoam antigas relações e, como nunca se pode evitar, acabamos dizendo mágoas demais. Nada que não passasse nas próximas duas horas, sabíamos. Passos juntos. Peitos apertados daquela vontade de abraçar. Mas, só de orgulho besta, ainda não. Nem uma palavra. Quase no quarteirão de casa, ela não agüentou. Soltou a mão da minha mão, irritada, saiu andando na frente. Claro que irrita não conseguir dizer logo eu te amo e acabar com a bobagem. Eu também me sinto assim. Sempre. Mas ela nunca agüenta, sai andando na frente. Virou a esquina. E... sumiu. Simples assim. Sumiu. Desapareceu. Pessoa desaparecida na noite estranha. Ninguém sabe explicar. A última coisa que eu vi foi isso, moço, ela virando a esquina muda. Eu? Choro.