30. A primeira menina
Vai chegar Stella. Dizem que segundo filho a gente trata diferente. Porque já sabe que não morre se cair e que não sufoca com a comida. Mas desta vez é uma menina! Imagine se o pai não está bobo com a idéia de ter uma mini-mulher-da-sua-vida, e se a mãe não está sonhando com os vestidinhos lindos que vai comprar para ela. Eles podem negar, mas, tirando daqui e pondo dali, é assim que se sentem. Ela foi primeira filha, portanto, provavelmente, vai mimar Stella. Ele é homem e não teve irmãs, portanto, provavelmente, vai mimar Stella. Mas como será isso, de ter uma boneca de verdade nos braços? Uma bonequinha que depende da gente para tudo, como na infância. A gente que dá de comer, que dá banho, penteia o cabelo, põe as chiquinhas, as pulseirinhas, os perfuminhos. Como será ninar uma boneca que se mexe? E brincar de mamãe com uma filhinha que respira e sorri? Como será agora brincar de casinha com a família completa? Eles não sabem. Mas querem brincar disso para sempre.
Hiperbreves são contos curtos. Pretendem ter a medida exata.
Não podem ultrapassar mil toques. Porque "escrever é cortar palavras".
Comecei a escrevê-los em 2001. E sigo tentando ser uma pessoa hiperbreve.
sexta-feira, agosto 20
terça-feira, agosto 10
29. A camareira
Viaja de ônibus todo fim-de-semana. Seis horas para ir. Seis para voltar. Não dorme na estrada. “De jeito nenhum!”. Fica lá sentada, de olhos abertos no escuro, pensando talvez. Não se sabe. Tem cabelos curtos e grisalhos. Põe bobe nas pontas para fazer chanel. Usa óculos, mas disfarça. “Eu enxergava que era uma beleza, mas a gente fica velha!”. Fuma bastante. Não perde a parada - para fumar, claro. Ás vezes está um frio de matar, mas ela vai. Fica lá no banquinho, de gorro e luvas, soltando fumaça. Antigamente nem deitar a poltrona ela deitava. Agora aprendeu. “Ah, é muito mais confortável! Eu não sabia”. Quando chega, pega a malinha, e com sua magreza infantil vai a passos curtos e rápidos para o metrô. Toma o trem para o Tucuruvi. “Ai, que saudade dos meus gatinhos”. Tem doze. Com nome e sobrenome. Passa a semana com eles. Quando viaja, o marido cuida. “Tenho que trabalhar, senão quem compra comida pros gatos?”. Não tem filhos, nem dentes. Mas tem muita, muita alegria de viver.
Viaja de ônibus todo fim-de-semana. Seis horas para ir. Seis para voltar. Não dorme na estrada. “De jeito nenhum!”. Fica lá sentada, de olhos abertos no escuro, pensando talvez. Não se sabe. Tem cabelos curtos e grisalhos. Põe bobe nas pontas para fazer chanel. Usa óculos, mas disfarça. “Eu enxergava que era uma beleza, mas a gente fica velha!”. Fuma bastante. Não perde a parada - para fumar, claro. Ás vezes está um frio de matar, mas ela vai. Fica lá no banquinho, de gorro e luvas, soltando fumaça. Antigamente nem deitar a poltrona ela deitava. Agora aprendeu. “Ah, é muito mais confortável! Eu não sabia”. Quando chega, pega a malinha, e com sua magreza infantil vai a passos curtos e rápidos para o metrô. Toma o trem para o Tucuruvi. “Ai, que saudade dos meus gatinhos”. Tem doze. Com nome e sobrenome. Passa a semana com eles. Quando viaja, o marido cuida. “Tenho que trabalhar, senão quem compra comida pros gatos?”. Não tem filhos, nem dentes. Mas tem muita, muita alegria de viver.
sexta-feira, agosto 6
28. Às quartas
A mãe sofre demais toda quarta-feira à noite. Porque no outro dia alguém vem buscar a menina. Você sabe o que é, meu senhor, ter de ver sua filha pequena indo embora em braços ruins? É um crime, meu senhor. Uma violência. Um mistério de Deus, se Deus houver. Lave as mãos, meu senhor, para falar com esta mulher. Uma santa. Uma filha santa, uma irmã santa, e agora uma mãe santa. Você sabe, meu senhor, por que sofrem as boas almas? Lave a alma, meu senhor, com a história desta mulher. Não vou contá-la, não, para que o senhor imagine o pior. Uma santa de cujos braços de mãe lhe arrancam a criança. Toda a semana, meu senhor. Toda semana. E ela, paciente, espera. Quatro dias que duram meses. É quase a espera de nascer de novo. E quando a menina chega, iluminam-se todas as janelas, todos os olhos, todos os corações do bairro. Da cidade. Do mundo. Você sabe o que é, meu senhor? É quase a morte quando a levam. É uma santa mutilada a cada partida. É uma vida injusta, meu senhor.
A mãe sofre demais toda quarta-feira à noite. Porque no outro dia alguém vem buscar a menina. Você sabe o que é, meu senhor, ter de ver sua filha pequena indo embora em braços ruins? É um crime, meu senhor. Uma violência. Um mistério de Deus, se Deus houver. Lave as mãos, meu senhor, para falar com esta mulher. Uma santa. Uma filha santa, uma irmã santa, e agora uma mãe santa. Você sabe, meu senhor, por que sofrem as boas almas? Lave a alma, meu senhor, com a história desta mulher. Não vou contá-la, não, para que o senhor imagine o pior. Uma santa de cujos braços de mãe lhe arrancam a criança. Toda a semana, meu senhor. Toda semana. E ela, paciente, espera. Quatro dias que duram meses. É quase a espera de nascer de novo. E quando a menina chega, iluminam-se todas as janelas, todos os olhos, todos os corações do bairro. Da cidade. Do mundo. Você sabe o que é, meu senhor? É quase a morte quando a levam. É uma santa mutilada a cada partida. É uma vida injusta, meu senhor.
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