segunda-feira, novembro 29

31. Asas

Abri a janela pela manhã e ele estava ali caído, quase morto. Eu estava morta, portanto sabia que ele ainda tinha uma chance. Não tive coragem de pegá-lo porque minhas mãos pesadas iriam matar o fiapo de vida. Então eu rezei. Trouxe água. Trouxe comida. Dei carinho. E rezei. Abri a janela no dia seguinte e ele não estava mais lá. Não tinha morrido. Porque eu tinha, e sabia que quando se morre não se sai do lugar. Queria eu não estar mais ali no dia seguinte. Eu queria sumir, subir, voar. Queria alguém que me trouxesse água. E comida. Alguém que me fizesse carinho e que rezasse por mim. E queria não estar mais aqui no dia seguinte. Porque estou cansada de não voar. Estou cansada de não voar. Estou cansada. De não voar estou exausta. Estou exausta. E essa janela é um tédio. Sempre a mesma paisagem. A mesma paisagem de não voar. A paisagem desabitada que não serve nem como vista para a morte. Abri a janela na manhã seguinte e ele estava lá, morto. Sem asas, os dois, nos fazemos companhia.