sexta-feira, junho 7

10. O porão

Dez anos depois da primeira noite no porão, finalmente vão se casar. São lindos. Amados, idolatrados, mimados e felizes. Salve. Ela pinta, faz artesanato, faz as unhas, faz ginástica, faz pirraça. Ele é corinthiano, libanês e pimpão. Tem loja no Brás, vende roupa pra garotão e supre todas as necessidades do guarda-roupas do irmãozinho dela, de dois metros de altura. O cunhado conserta os micros dele e é cúmplice de um monte de coisas. Principalmente das noites no porão. Lá ficava o primeiro sofá deles e o primeiro computador do moleque. O casamento é no mês que vem, mas ninguém agüenta mais esperar. Ninguém nunca agüentou direito. Um dia ele pediu licença, ela pensou que vinha um beijo, veio só um cafuné, pra começar bem. Um dia ela pediu licença, teve gente que chorou de medo que ela não voltasse, mas foi só pra terminar bem. Ou para não terminar nunca. O porão não existe mais onde ele era. Mas dizem que já estão cavando um novo na casa onde eles vão morar.

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