18. A vida foi ontem
Ele abriu os olhos. Olhou ao redor. O quarto estava vazio. Levantou-se, em silêncio. Abriu a porta. Vagou pela casa. Estava vazia. Sentia fome, e sede, e frio. Procurou na geladeira, nos armários, nas gavetas. Tudo vazio. Não conseguia se lembrar do dia anterior, nem de nada antes daquele momento, daquela manhã vazia. Ele estava vazio. Um náufrago num mundo estranho. Um estrangeiro na própria existência. Ficou assustado. Correu para o jardim, vazio. Saiu para a rua, tenso: vazia. Desesperou-se. Andou muito. Cansou. Deixou-se cair ao chão. E viu que o céu estava vazio. Sem forças (...) ficou lá deitado, olhando. Ficou olhando o vazio. Pensando no vazio. Sentindo, só, vazio. Pausa. Longa pausa no vazio. Então, com calma ele esticou o corpo, ficou de pé, começou a voltar. Caminhou devagar. Entrou em casa. Trancou a porta da frente. Trancou a porta do quarto. Enfim estava cheio daquele vazio. Dormiu cheio. E vai acordar ontem. Ganhou mais uma chance.
Nenhum comentário:
Postar um comentário