sexta-feira, junho 7

1. A Grande Atriz

Ninguém como ela. Aquela mulher no palco transforma atuar em sacramento. No dia de minha morte fui vê-la, sem nunca imaginar as lágrimas doces que cairiam mais tarde. Antes de tudo, eu chorava pela verdade desesperada que ela me entregava em cena. Cada movimento desenhado, esculpido. A obra extraordinária do artista perfeito. Uma partitura de ações, música de gestos, trilha. O olhar: profundo. A voz penetrante. O corpo em (des)harmonia com a decadência de uma mulher apaixonada, e desprezada, e abandonada com uma ilusão que não lhe preenchia mais. A atriz mais maravilhosa que já conheci. Não sabíamos, mas, ali, destrinchando as entranhas das minhas emoções mais secretas, ela despedia de mim o teatro, razão de viver. Não sabíamos. E ela jamais saberá o que me deu naquela noite. À saída do espetáculo, um estouro perdido, a cabeça estilhaçada. Saí de cena muda. Mas plena das lágrimas amargas de Petra Von Kant. Minhas.

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