2. Amor e guardanapos
Vinte e seis anos de vida e eu nunca havia reparado. Devo ter me abaixado para pegá-lo mais de mil vezes, mas nunca me dera conta. Até que papai nos chamou a atenção um dia: ela sempre derruba. Minha mãe é psicóloga, chique, inteligente. A mãe mais culta que conheço. É elegante, vaidosa, bonitíssima. Estão juntos há mais de quarenta anos. Não é para qualquer um. Ele é perfeccionista, sábio, um touro. Quarenta e oito e meio, para ser mais exata. Quatro filhos. Três netos. E eles namoram, ainda. Jantamos muito juntos, almoçamos aos domingos, já viajamos bastante. Mas nenhum de nós percebia. É desses detalhes que recheiam um amor de vida inteira. Desses sinais de que eles não existem separados. E dessas pequenices que nos unem pelo riso. Minha mãe é impecável. Meu pai, um lorde. Mas a cena é de cantina de cinema italiano. Ela sempre derruba o guardanapo. E ele sempre reclama. Graças a Deus.
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