4. As metades e o segredo
Elas se apaixonaram. Viveram juntas os dias mais felizes. Não foi à primeira vista. Foi uma descoberta lenta e boa. Amizade enraizada em detalhes, que virou família, que virou paixão, e amor. Primeiro um cinema com as outras meninas. Depois, festas! E aí já saíam sozinhas porque se bastavam. Estudavam juntas, almoçavam juntas, matavam juntas o trabalho. Adoravam Fábio Jr. e teatro. E todos os dias entretinham, juntas, as crianças que tinham dentro de si. Cantavam alto no carro, gritavam à toa, pulavam no sofá, faziam cócegas até morrer de rir. Um dia as cócegas viraram abraços. E as risadas, respiros, suspiros, susto! Eram uma só. Descobriram, ao mesmo tempo, a alegria-sem-palavras de amar e a angústia de ter um-segredo-tão-grande. Mas o amor era maior do que tudo. Foram felizes durante anos, apesar dos olhares felinos, dos ambientes cruéis e das mães, devastadoras. Até que o amor perdeu. Elas perderam, e se perderam. E voltaram a viver pela metade.
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