terça-feira, agosto 10

29. A camareira

Viaja de ônibus todo fim-de-semana. Seis horas para ir. Seis para voltar. Não dorme na estrada. “De jeito nenhum!”. Fica lá sentada, de olhos abertos no escuro, pensando talvez. Não se sabe. Tem cabelos curtos e grisalhos. Põe bobe nas pontas para fazer chanel. Usa óculos, mas disfarça. “Eu enxergava que era uma beleza, mas a gente fica velha!”. Fuma bastante. Não perde a parada - para fumar, claro. Ás vezes está um frio de matar, mas ela vai. Fica lá no banquinho, de gorro e luvas, soltando fumaça. Antigamente nem deitar a poltrona ela deitava. Agora aprendeu. “Ah, é muito mais confortável! Eu não sabia”. Quando chega, pega a malinha, e com sua magreza infantil vai a passos curtos e rápidos para o metrô. Toma o trem para o Tucuruvi. “Ai, que saudade dos meus gatinhos”. Tem doze. Com nome e sobrenome. Passa a semana com eles. Quando viaja, o marido cuida. “Tenho que trabalhar, senão quem compra comida pros gatos?”. Não tem filhos, nem dentes. Mas tem muita, muita alegria de viver.

Nenhum comentário: