segunda-feira, agosto 22

33. Patinhos mortos

Era uma vez uma menina de cabelos cor de pato. Não de pato mesmo; de patinhos. Patinhos de borracha, de criança, de amor. Aqueles de chuveiro, de banheira. Ela adora banheira. Um dia, foi tomar banho de água, com seus cabelos e seus patos. Mas teve um mal súbito. Era muito pequena, não entendia disso. Então sua mãe chamou a ambulância e disse: carreguem ela daí! Disse bem assim: carreguem ela! - Como se eu não tivesse o direito de ter patinhos, nem cabelos, nem banheira, nem banho, nem um mal, súbito. Fechei as minhas mãos pequenas, bem apertadinhas, cada uma cheia de pato para me proteger. E eles me levaram. Eu estava vendo através dos meus olhos fechados. Não sei como. – No hospital, todo branco, disseram para a mãe da menina qualquer coisa que ela, pequena, não entendeu, e nem sabe bem como ouviu. Estava dormindo acordada. Rasparam todo o cabelo dela. Ficou tudo branco. E ela só sonha, há anos, com os patinhos morrendo sem água. Na cama cor de pena. De ganso. - Detesto ganso.

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