segunda-feira, junho 10

18. A vida foi ontem

Ele abriu os olhos. Olhou ao redor. O quarto estava vazio. Levantou-se, em silêncio. Abriu a porta. Vagou pela casa. Estava vazia. Sentia fome, e sede, e frio. Procurou na geladeira, nos armários, nas gavetas. Tudo vazio. Não conseguia se lembrar do dia anterior, nem de nada antes daquele momento, daquela manhã vazia. Ele estava vazio. Um náufrago num mundo estranho. Um estrangeiro na própria existência. Ficou assustado. Correu para o jardim, vazio. Saiu para a rua, tenso: vazia. Desesperou-se. Andou muito. Cansou. Deixou-se cair ao chão. E viu que o céu estava vazio. Sem forças (...) ficou lá deitado, olhando. Ficou olhando o vazio. Pensando no vazio. Sentindo, só, vazio. Pausa. Longa pausa no vazio. Então, com calma ele esticou o corpo, ficou de pé, começou a voltar. Caminhou devagar. Entrou em casa. Trancou a porta da frente. Trancou a porta do quarto. Enfim estava cheio daquele vazio. Dormiu cheio. E vai acordar ontem. Ganhou mais uma chance.

sábado, junho 8

17. Hipóteses invisíveis

No dia 8 de junho completaram quatro anos de namoro. No dia 1° de agosto se separaram. Foi uma discussão igual a muitas outras, mas daquela vez não tinha volta. Um pouco por causa do cansaço, um pouco por causa do resto do mundo. Agora o que sobrava para ocupar os dias de dor era pensar se poderia ter sido diferente... E se ela tivesse sido mais flexível? E se tivesse relevado mais coisas? Se não invadisse tanto o futebol? Se não implicasse com as noites de bebedeira? E se gostasse um pouco mais de praia? E se não quisesse ir tanto ao cinema? E se tomasse menos decisões? E se dissesse mais coisas bonitas? E se ela tivesse mais paciência? Se comesse menos no Mc Donalds? Se fosse menos dependente? E se sentisse menos frio na neve? E se acordasse mais cedo? Esquiasse mais? Corresse no parque? Se não chorasse tanto? Se não brigasse sem motivo? Se não tivesse mau humor? E se fosse de outra cor? De outro tamanho? Se chovesse? E se não enxergasse? Se não enxergasse seria mais fácil encarar.
16. Amor de raposas

Estava perdidamente apaixonada. E não é força da expressão. Estava mesmo perdida. Sem saber para onde ir quando acordava, sem encontrar os caminhos por onde antes conseguia escapar. Ela estava sentindo de novo aquela coisa que move a gente. Que tira os limites, que cristaliza os olhos, que escancara o sorriso. Não queria sentir, mas era sem controle. No começo nem conseguiu pensar em como tudo era absurdo, porque a cabeça não funcionava. Ela olhava aqueles olhos que amava e surgia um nublado de sonho e satisfação confundindo o raciocínio. Comprou presentes, faltou ao trabalho, perdeu a noção da hora dias seguidos, vendo o céu clarear no meio da conversa. Fez coisas de que não gostava, com prazer. Aprendeu a gostar porque amava quem ensinava. Ainda ama, mas sozinha. E quando se pergunta para que serve tudo isso, ela se lembra da raposa, do pequeno príncipe, e do trigo... Fecha os olhos e agradece por ser capaz de amar. Não importa quem. Não importa muito.
15. Esforço e indelicadeza

Foi assim como um soco no estômago. Ela acordou no dia do aniversário dele e não pensou em outra coisa senão nos presentes. Queria que fosse especial, como havia muito não era. Queria mostrar para ele que ainda existia uma esperança. E ela acreditava que ele também queria. Passou toda a tarde olhando vitrines, escolhendo gravatas, procurando idéias. Fez cópia de uma foto dos dois para colocar no porta retrato que escolheu para ele. Completou as caixas com chocolates e sonhos. Foi levar. Sabia que ele não estava em casa. Mas a família estava. E a família sempre a recebia melhor do que ele. Assim foi. No fundo, ela preferia que os presentes fossem para a família. Mas estava tentando. Ele, ela sabia, só no dia seguinte. Mas aí veio o soco. Ele não ligou. Já fora mais educado, ela pensou. O soco não doeu, foi só incômodo. E o que mais incomoda no fim de tudo é isto: ela queria acreditar que ainda queria, mas era só esforço. Ela nem faz questão que ele ligue, só lamenta a indelicadeza.
14. As três e o amor

Eram três. Uma não via. Outra não ouvia. E a terceira não falava. Tinham um acordo íntimo: completavam-se. Sabiam que juntas podiam tudo. Separadas, não sabiam... Bê era a que não falava, tinha o olhar claro e os ouvidos atentos. Cê não escutava e era a menina dos olhos. Tinha uma boca delicada e cílios longos, que faziam moldura para jaboticabas, penetrantes e sinceras. Dê não enxergava, mas tinha o dom da palavra. Invadia, hipnotizava, fazia crer no que queria, e gostava de ouvir os aplausos no fim do discurso. Viviam como ímãs. Optaram por ser uma inteira a três pedaços. As pessoas não entendiam bem. Tentavam se aproximar mas não conseguiam. As três fecharam-se para garantir a união inquebrável. Temiam muito, porém, o que poderia separá-las, mas não sabiam o quê. Até que descobriram. O amor. Cê se apaixonou por Sven, enxergou nele o que lhe faltava, e deixou de ser os olhos das três. Bê e Dê se perderam, cegas. E andam perdidas à procura de Svan e Svin.

sexta-feira, junho 7

13. O primeiro filho

Fabiana vai ter um bebê. O primeiro. Ela tem uma beleza grávida que lhe transforma a forma em diamante. Brilha. Mudou-se de casa porque não tinha um quarto para Lucas. Fernando ajudou a escolher o nome. Pintou as paredes, carregou os móveis, e passa horas admirando a barriga que lhe faz pai. O quarto do bebê está sendo montado: prateleiras, cortinas brancas, tons pastéis no berço e uma cômoda de madeira clara com gavetas grandes. Roupinhas, Lucas já ganhou muitas, e sapatinhos, e bichinhos, e coisinhas. Fabiana arruma a nova casa enquanto espera. Cada coisa traz lembranças. Os presentes de casamento, os enfeites da sala, a geladeira, os ímãs das viagens que fizeram juntos nesses três anos, as fotos. Tantas fotos... Ela se emociona e até chora pensando no que já viveu. Mas ela sabe - porque a avó contou, a mãe contou, a tia contou - e sabe mais a cada dia, porque sente, que nada se compara à emoção que está por vir: o primeiro filho.
12. Olhos de brinquedo

A menina da janela observa tudo. Está no segundo andar. A rua é calma, margeada de árvores e coberta de folhas. A casa é rosa, tem um gramado ao redor, uma varanda na entrada e nada de portão trancando a menina. Ao alcance dos olhos dela está o sobrado lilás, bem em frente. A escola de inglês, do lado esquerdo do sobrado. E a praça com o gira-gira, do outro lado. Ela não liga pro gira-gira. Gosta mesmo é de ver as pessoas. Tem oito anos e uma população dentro de si. Sabe como a criada da frente varre a calçada, conhece o andar da diretora da escola e imita direitinho a garota manca que brinca na praça todas as tardes. Não erra o barulho do lixeiro. Pergunta - e decora - nome e sobrenome de cada entregador que aparece. Já contou os cadernos que o menino do skate leva para a aula de música - três - e está quase certa de que o guarda da noite apita 44 vezes, da hora em que entra no turno até a hora em que ela dorme. A menina da janela tem cachinhos dourados, dentes de leite, e é cega.
11. Uma semana com ela

Fomos ao aeroporto, minha mãe e eu, buscá-la com uma alegria que nos delatava a saudade. Esperei no carro e quando a vi, ainda embaçada pelo vidro da janela, já senti a falta que ela nos faz. Mas o amor é tanto que em dois minutos nos encaixamos como se tivéssemos estado sempre perto. Como mercúrios coloridos que, despejados num vidro cheio de contornos, se preenchem, se desenham, se moldam conforme a felicidade de estar junto transforma o tempo distante em harmonia e arte. Agora estamos aqui, em casa, quase todos. Crianças, cachorros, música, mamãe gritando, telefone, campainha. Papai não está, ainda. Mas a presença dele é constante e Recife é logo ali. É festa. É domingo. Tia Odila também não está. Mas sei que só não podemos vê-la, porque ela nunca sai daqui, e nos completa. Agora preciso ir porque o tempo com minha irmã é precioso. A barriga dela está começando a aparecer. O bebê já deve estar sentindo o amor que o espera aqui fora. Quero que a semana não acabe.
10. O porão

Dez anos depois da primeira noite no porão, finalmente vão se casar. São lindos. Amados, idolatrados, mimados e felizes. Salve. Ela pinta, faz artesanato, faz as unhas, faz ginástica, faz pirraça. Ele é corinthiano, libanês e pimpão. Tem loja no Brás, vende roupa pra garotão e supre todas as necessidades do guarda-roupas do irmãozinho dela, de dois metros de altura. O cunhado conserta os micros dele e é cúmplice de um monte de coisas. Principalmente das noites no porão. Lá ficava o primeiro sofá deles e o primeiro computador do moleque. O casamento é no mês que vem, mas ninguém agüenta mais esperar. Ninguém nunca agüentou direito. Um dia ele pediu licença, ela pensou que vinha um beijo, veio só um cafuné, pra começar bem. Um dia ela pediu licença, teve gente que chorou de medo que ela não voltasse, mas foi só pra terminar bem. Ou para não terminar nunca. O porão não existe mais onde ele era. Mas dizem que já estão cavando um novo na casa onde eles vão morar.
9. Franguinho de leite

Estavam noivos. Mas ela não suportava nem olhar para ele. Nunca o beijou. Jura de pés juntos que não! Não aguentava a voz, o cheiro... Era uma tortura. Sofrimento não era porque ela dava risada por dentro. Mas não podia mais levar aquilo adiante. Criou coragem, tirou o anel do dedo e desfez o compromisso. Devolveu os presentes, as jóias, e pediu para ele sumir. O pai fez que não entendeu. Ou talvez não tenha entendido mesmo. Olha, meu querido, ela está brincando, passa aqui amanhã para comer franguinho de leite. Mas que franguinho de leite, pai?! Eu estou rompendo o noivado e o senhor chama o homem pra comer franguinho de leite! Tenha santa paciência! Está aqui a aliança. Passar bem. E nada de vir comer franguinho amanhã. Esse leite já azedou faz tempo! Ele não voltou. Ela deu de ombros, agradeceu a Deus, e casou com um outro que não incomodava tanto.
8. Teatro do absurdo

É uma típica adolescente. A não ser por apreciar muito literatura. Não que os adolescentes não tenham essa virtude, mas não é típico. Clarice, Pessoa, Saramago, Nelson... Moça de gosto apurado, e de bons professores. Alta, magra, cabelos longos e castanhos, olhos de menina, pele muito clara, bochechas muito rosas quando o sangue ferve, claro. De longe, vestida para a festa, engana ter uns oito anos mais. De longe. É apaixonada pelo teatro e por tudo que tenha ligação com ele. Densa, profunda, dramática e imatura. De longe. Está prestes a protagonizar uma tragédia. Seu primeiro papel principal - rodrigueano. Confundiu-se porque quer fugir da vida que leva. Quer outra. Não gosta do que tem nem do que é. E ama o teatro. Ela está em casa, tem uma faca na mão, vai matar a família. Misturou palco e farinha e não sabe mais distinguir os refletores do abajur da sala. Os pais, e a irmã, dormem. Ela está cega, mas a faca, não. Os pais e a irmã dormem.
7. Continua sem saber

O que sentiu ela não sabe explicar. Mas foi dor. Foi como se a pessoa à sua frente, no meio de tantos amigos, fosse qualquer uma menos aquela, com quem tivera uma vida em comum. O rosto era o mesmo, as roupas, o cabelo, a voz. O olhar, não sabe. Não tiveram coragem de parar os olhos nos olhos. Mas o cheiro, os passos, os planos para mais tarde eram outros. Quais, não ousou pensar. Na verdade pensou, mas para não chorar ali mesmo esqueceu o que sabia. Chorou depois. Dois abraços foi tudo o que trocaram. Ela quis dizer tanta coisa mas nem sabe se abraçou direito. O corpo tremia, a cabeça voava, nem sabe o que deu. Mas sabe o que não recebeu: carinho, saudade, vontade do passado, chance. Sentiu tudo sozinha. E foi dor. Mais uma vez se despediram para Deus-sabe-quando. Mais uma vez ela tenta achar o que fazer com o resto de si. As partes quebradas de si. O que sobrou da vida. Nem sabe...
6. Estrela Cadente

Criamos uma equipe de expedição. Chama-se Estrela Cadente. Os chefes somos nós três: Luca, Giovanna e eu. Estávamos na casa da tia Ivete, em um domingo triste, e a necessidade de ocupar o tempo fez nascer o grupo e a aventura. O primeiro desafio foi lá mesmo, conseguimos dar várias voltas na casa sem sermos vistos. Corremos, pulamos, rastejamos e terminamos com vida. A segunda aventura foi na casa da Dri, mas a hora do banho nos venceu. Hoje a tarefa foi mais ousada. Caprichamos na produção e adquirimos vários equipamentos de apoio. O objetivo era percorrer cada canto da mansão do vovô, descobrir as passagens secretas e enfrentar de perto os latidos assustadores das feras que habitam a garagem. Mochilas nas costas, chapéus camuflados nas cabeças, rádios comunicadores nas mãos, binóculos e chaves para todas as portas - partimos. Muito suor mais tarde: vitória! Nota dez e estrelinha! Com participação especial da tia Dani, dupla passagem pelos cães ferozes, e muitos copos d'água.
5. Ela cantava os dizeres dos letreiros do caminho

Sinto a falta dela como uma dor de dente. Uma dor de parto sem o filho depois. Os domingos não têm mais aquela luz. As ruas não têm mais aqueles letreiros. Ela lia todos. Todos os domingos. Na ida e na volta. Eram os mesmos, mas ela lia todos. Cantava-os às vezes. Ela cantava os dizeres dos letreiros do caminho. Parece brincadeira. E era a minha alegria. Ela me alegrava a hora, o dia, a semana e a vida inteira. Não há um dia em que eu não pense nela. E não há um pensamento que não doa. Quantas vezes o impulso de pegar o telefone foi mais forte do que a razão, fatal: ela morreu, não está mais, não vai atender. Ela não pode mais me dizer o que achou do que vimos agora na TV. Não vai mais lamentar comigo o rapaz que perdeu o milhão. Nem vai correr para ver o Tio Dinho no Túnel do Tempo. E o tempo não tira dos meus ouvidos a música que só ela sabia cantarolar. A música do caminho. Da ida e da volta.
4. As metades e o segredo

Elas se apaixonaram. Viveram juntas os dias mais felizes. Não foi à primeira vista. Foi uma descoberta lenta e boa. Amizade enraizada em detalhes, que virou família, que virou paixão, e amor. Primeiro um cinema com as outras meninas. Depois, festas! E aí já saíam sozinhas porque se bastavam. Estudavam juntas, almoçavam juntas, matavam juntas o trabalho. Adoravam Fábio Jr. e teatro. E todos os dias entretinham, juntas, as crianças que tinham dentro de si. Cantavam alto no carro, gritavam à toa, pulavam no sofá, faziam cócegas até morrer de rir. Um dia as cócegas viraram abraços. E as risadas, respiros, suspiros, susto! Eram uma só. Descobriram, ao mesmo tempo, a alegria-sem-palavras de amar e a angústia de ter um-segredo-tão-grande. Mas o amor era maior do que tudo. Foram felizes durante anos, apesar dos olhares felinos, dos ambientes cruéis e das mães, devastadoras. Até que o amor perdeu. Elas perderam, e se perderam. E voltaram a viver pela metade.
3. Luca e o fim do mundo

Chegamos à lanchonete e ele disparou para os brinquedos lá fora. Para ele, o maior parque do mundo! Um escorregador enorme, em formato de tubo, e uma piscina de bolinhas. O maior parque do mundo! Luca tinha cinco anos e correu para brincar com mais fome do que a que um sanduíche poderia saciar. Compramos os lanches felizes, sentamos, comemos. Ele não veio: brincava. Estava lá, reluzente, num ciclo de subidas e descidas, e cheio da maior glória que uma criança pode ter! De repente parou, se afastou, ficou estático olhando de longe a entrada do brinquedo. O que foi, meu amor? - perguntei. Um menino de oito anos - oito anos! -, ele arregalou os olhos, me disse que luta karatê e que não quer mais que eu brinque no escorregador, respondeu com um nó de choro na garganta. Por mais que a gente explicasse que o menino não era o dono do lugar, ou insistisse para ele voltar lá, não quis mais saber. Tomado de um pavor mortal, pegou seu saquinho de batatas e foi comer lá dentro, na mesa mais distante que encontrou.
2. Amor e guardanapos

Vinte e seis anos de vida e eu nunca havia reparado. Devo ter me abaixado para pegá-lo mais de mil vezes, mas nunca me dera conta. Até que papai nos chamou a atenção um dia: ela sempre derruba. Minha mãe é psicóloga, chique, inteligente. A mãe mais culta que conheço. É elegante, vaidosa, bonitíssima. Estão juntos há mais de quarenta anos. Não é para qualquer um. Ele é perfeccionista, sábio, um touro. Quarenta e oito e meio, para ser mais exata. Quatro filhos. Três netos. E eles namoram, ainda. Jantamos muito juntos, almoçamos aos domingos, já viajamos bastante. Mas nenhum de nós percebia. É desses detalhes que recheiam um amor de vida inteira. Desses sinais de que eles não existem separados. E dessas pequenices que nos unem pelo riso. Minha mãe é impecável. Meu pai, um lorde. Mas a cena é de cantina de cinema italiano. Ela sempre derruba o guardanapo. E ele sempre reclama. Graças a Deus.
1. A Grande Atriz

Ninguém como ela. Aquela mulher no palco transforma atuar em sacramento. No dia de minha morte fui vê-la, sem nunca imaginar as lágrimas doces que cairiam mais tarde. Antes de tudo, eu chorava pela verdade desesperada que ela me entregava em cena. Cada movimento desenhado, esculpido. A obra extraordinária do artista perfeito. Uma partitura de ações, música de gestos, trilha. O olhar: profundo. A voz penetrante. O corpo em (des)harmonia com a decadência de uma mulher apaixonada, e desprezada, e abandonada com uma ilusão que não lhe preenchia mais. A atriz mais maravilhosa que já conheci. Não sabíamos, mas, ali, destrinchando as entranhas das minhas emoções mais secretas, ela despedia de mim o teatro, razão de viver. Não sabíamos. E ela jamais saberá o que me deu naquela noite. À saída do espetáculo, um estouro perdido, a cabeça estilhaçada. Saí de cena muda. Mas plena das lágrimas amargas de Petra Von Kant. Minhas.